De quem é a culpa? De Adão, de Eva ou da serpente? Já perceptível na Antiguidade, a culpa impregna a vida afetiva da humanidade, gerando sofrimento da alma. Presente em todas as culturas, frequentemente não é nem conspícua nem consciente. Para abordar as manifestações inaparentes da culpa, o ensaio mergulha inicialmente nas águas obscuras do inconsciente. Indubitavelmente, é em Freud que a ciência ocidental encontra a mais obstinada, desafiadora e ousada pesquisa sobre o inconsciente. Em sua trajetória científica, o criador da Psicanálise se envolveu inicialmente com os estudos de uma doença – a histeria – que era tão comum quanto misteriosa no final do século XIX. Observou que os sintomas da moléstia eram causados por mecanismos psíquicos inconscientes e que mecanismos similares eram encontrados nos sonhos. Passou então a estudar o inconsciente também na vida onírica, uma atividade psíquica fisiológica, normal e universal. Graças a esses estudos, desenvolveu uma primeira teoria sobre o aparelho psíquico e os mecanismos funcionais do inconsciente, destacando censura e resistência como funções de controle do fluxo dos conteúdos entre os planos da consciência e da inconsciência. Detectou manifestações do inconsciente também durante a vida normal de vigília, como nos atos falhos e chistes. Por volta de 1920, insatisfeito com sua primeira teoria, Freud desenvolveu uma segunda, concebendo mais três componentes do psiquismo: Id, Ego e Superego. O tema da culpa está particularmente vinculado ao Superego, um conjunto de ensinamentos, leis e ideais, absorvidos a partir de pais, professores, ídolos, tradições e pessoas influentes. Pode ser comparado a um acervo conceitual ou mesmo a um patrimônio dogmático que vai sendo formado predominantemente na infância. Uma de suas funções é atuar como juiz interior, despertando o sentimento de culpa e o ato de culpar, em associação às necessidades de punição e de reparo, ao medo, à ansiedade e à angústia. Freud testemunhou a crueldade humana durante a Primeira Guerra Mundial e a geração da Segunda até 1939, ano de sua morte. Sua visão sobre a humanidade não é otimista. Procurando entender os mecanismos envolvidos nesses processos, o ensaio aborda também a análise transacional, as fases psicossexuais de desenvolvimento, as posições esquizoparanoide e depressiva infantil, as pulsões de vida e de morte e estudos neurocientíficos correlacionados com essas manifestações psíquicas. As religiões destacaram a questão da culpa mais precoce e veementemente do que a Psicanálise, como se percebe no mito da expulsão do Éden. Na épica história de Moisés, encontramos a fé e a esperança da Aliança de um povo com seu Deus, a espiritualidade tentando vencer a matéria. Nos Dez Mandamentos, há também o objetivo de trazer aos homens um conjunto de leis que precede o sistema judiciário e procura harmonizar as ações humanas com a vontade de Deus. Culpa diante do descumprimento da lei, punição, medo, ansiedade e angústia fazem parte do relato bíblico nas décadas vividas no deserto do Sinai e assim permanecem na vida futura. Por outro lado, e paralelamente, a história bíblica descreve recompensas que são atribuídas à vida virtuosa. Séculos depois, Jesus traz mensagens que exaltam virtudes como a misericórdia, generosidade e amor a Deus e ao próximo, dispondo-as num patamar superior ao da culpa. São princípios que deveriam impregnar o Ideal do Ego. A busca de saúde mental, paz interior e felicidade pode encontrar ajuda tanto na psicoterapia como na religião. O ensaio procura demonstrar que ambas apresentam evidências científicas para seus efeitos benéficos e podem atuar sinergicamente para o bem-estar psíquico do ser humano e para que a humanidade viva num mundo melhor.
| Peso: | 760 g. |
| Páginas: | 535 |
| ISBN: | 9786501583310 |
Editora UnB - CNPJ n° 00.038.174/0019-72 - UnB, Centro de Vivência - Asa Sul - - BRASILIA - DF
Usamos cookies em nosso site para fornecer a experiência mais relevante,lembrando suas preferências e visitas repetidas. Ao clicar em “Entendi”,concorda com a utilização de TODOS os cookies.